Review – Mad Max: Fury Road

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Mad Max guarda alguma relação com Star Wars. Ambos são trilogias iniciadas nos anos 70, consolidadas nos anos 80 e que, analisadas friamente, possuem apenas um grande filme. O do meio.

No caso de Star Wars, é  Império Contra-Ataca. Em Mad Max, somente o segundo,  Road Warrior, pode ser chamado de verdadeira obra prima.

O primeiro Mad Max chamou a atenção pelas intensas cenas de perseguição, por mostrar um cenário pouco visto até então (o deserto australiano) e pelo vigor com que o jovem George Miller dirigia sua piração distópica. Mas os verdadeiros elementos que compõe o inconsciente coletivo atrás de Mad Max ainda não se apresentavam. O filme parece um fanzine bem escrito.

Foi somente na segunda tentativa que  Miller abraçou (e praticamente inventou) a ficção pós-apocalíptica como tema, e Max Rockatansky virou o personagem monossilábico e durão que temos na nossa mente. Road Warrior é um arraso. Reassisti há pouco tempo, e parece que foi lançado ontem. Mel Gibson, já não tão novinho quanto no primeiro filme, entrega uma atuação econômica, contida, perfeita pro papel.

O terceiro filme acerta em cheio no visual, mas derrapa no roteiro. Escrito a quatro mãos, enquanto o diretor passava por uma crise, a dualidade fica evidente no filme. Foi inserida uma tentativa de redenção de Max que foge totalmente ao personagem. O mais caro da trilogia, e o menos apreciado.

E então, 30 anos se passam, com Miller e Gibson brincando de gato e rato. Quando um queria gravar, o outro preferia fazer outro Máquina Mortífera ou filmes com porcos ou pinguins falantes. Mad Max 4 começou a produção e foi interrompido várias vezes.

Eis que é o diretor que perde a paciência, e resolve fazer o filme por si só, abrindo mão do ator símbolo (que aliás, já não gozava do mesmo prestígio de antes). E o resultado é Fury Road.

 

Mas trazer Max de volta à atividade direto dos anos 80 não é tarefa fácil. O cinema e o público mudaram muito desde então. Pior do que não ter um novo filme, seria ver um Mad Max pausterizado, cheio de efeitos digitais, e pior, para menores de 13 anos. Pior ainda, George Lucas e Ridley Scott provaram que nem sempre os criadores deveriam voltar a mexer com suas criações.

Felizmente, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário.

Fury Road é pura e simplesmente um espetáculo. É um petardo de duas horas de ação ininterrupta, que Miller dirige como se fosse um moleque. É uma aula de edição, de enquadramento, de encadeamento, de fotografia, de economia e exagero, sempre nas horas certas.

Mais do que tudo, é um presente ver um filme que se arrisca tanto. Miller leva o filme sempre no limite. Não se importa se algum jovem não vai entender, se vai achar over, se vai sair pensando que aquilo tudo não faz sentido. O visual do filme é repleto de detalhes malucos, que só vou conseguir digerir após umas 4 exibições. Ele não economiza. Simplesmente derrama tudo que tem na tela, de uma maneira tão superlativa que em dado momento eu achei que ele não conseguiria dar climax. Mas consegue.

Tom Hardy assume o casaco surrado de couro como se tivesse nascido dentro dele. Seu Max é tão bom quanto o de Gibson. E se justifica. Mel pode estar bem fisicamente, mas não seria capaz de acompanhar o tranco que Hardy aguenta aqui. E parte da magia desse filme é justamente a tendência do diretor de evitar o excesso de CGI que domina os filmes de hoje. Indiana Jones 4 está aí para mostrar que um heroi de ação velho e casado não é exatamente o que queremos ver na tela.

Aliás, os blockbusters de hoje terão que rebolar para se adequar ao padrão que Fury Road apresenta. O filme tem humor, não piadinha. Tem ação vertiginosa, mas é inteligível, não disfarçada por câmeras tremidas ou efeitos caleidoscópicos. Tem mulheres bonitas, mas elas não se parecem com Bondgirls.  Um filme de ação que tem espaço para atuações sólidas. Tem lugar para outros personagens, que (pasmem!) são até mais interessantes que o próprio Max. Charlize Theron quebra tudo como Furiosa. Uma atuação realmente fantástica. E Nux, vivido por Nicholas Hoult, que consegue uma transformação sincera ao longo das duas horas de filme.

Mad Max: Fury Road é, na minha opinião, o melhor da série, e um dos melhores filmes de ação que eu já vi na vida. Eleva o patamar para qualquer filme depois que venha dele. E ironicamente, vai ter como concorrente a melhor filme geek do ano justamente o Star Wars que eu falava no início. Definitivamente os anos 80 tem mais a ensinar para o cinema arrasa quarteirão de hoje do que se podia prever.

Nota: A+